20º SUPER BOCK SUPER ROCK
Dia 1 (17 de Julho de 2014)
Vintage Trouble
Após uma entrada triunfal, este foi o concerto que estreou o palco principal. Oriundos de Los Angeles, apenas têm um álbum lançado em 2011 (The Bomb Shelter Sessions), mas de um CD é possível fazer-se a festa! De repente encontrávamo-nos num soul train de volta aos anos 50/60, influências dos pais de Ty Taylor (o vocalista), que se conheceram num bar dos fifties. Um som muito marcado pelos blues da época, mas que também vai buscar o rock, surgindo sob forma de um rock rhythm and blues que ainda tem influências de música latina, revela o vocalista... e que vocalista! É difícil desviar o olhar do que podemos chamar de mestre entertainer: para além de fazer introduções para cada música (you can do whatever you wanna do - Run Like the River - e assim o fez Ty, que escalou a torre de imagem; feel the love and let them know that they are loved too - Nobody Told Me), sabe como chamar a atenção com todo o sentimento por detrás de cada música, a sua voz de alcance ridículo, a sua energia contagiante no palco e tiradas como i see you troublemakers, oh we’re gonna party here today, let’s party all? e are you feeling sexual today?. O concerto podia durar horas que a eletricidade não se esgotaria certamente. Ty got the moves and he ain’t afraid to show it, e esse hiperativismo dançável rapidamente se espalha pelo público, que vai crescendo com o avançar da setlist, tanto pela curiosidade como pela chegada tardia dos seus banhos na praia, naquele que foi considerado o dia mais quente de todo o festival, e os Vintage Trouble têm um pouco de culpa.
Erlend Øye
From Norway, with love... seguimos agora para o palco EDP, onde regressa metade dos Kings of Convenience. Entramos num ambiente peace n’ love, levando-nos a crer que durante todo o set, não existia tal coisa como maldade no mundo. A junção de um sol já baixo, que cria o cenário perfeito, e instrumentos como a flauta transversal, as guitarras e a voz doce e grave de Erlend, culminam num chill out ótimo para ouvir num passeio de barco, um concerto perfeito para ver e ouvir aos pares. Cedo o vocalista elogia o público português, pedindo também desculpa pela voz, que não está a 100% (ficamos a saber que a banda dormiu ao relento num festival norueguês na semana passada), daí o uso de um cachecol em volta do pescoço em pleno verão. Mas cedo o cachecol desaparece, pois o amor de um público recetivo cura todos os males. E é pedindo à plateia para cantar ciao e arrivederci numa nova música italiana presente no novo álbum ainda por lançar (Legao) e upside down em Upside Down, que a harmonia entre os artistas e o público fica completa. Relação tão fortificada, que Erlend pede uma palheta emprestada (nota sem qualquer interesse mas que indico na mesma: a palheta era do awesome Sponge Bob Square Pants). Fomos ainda presenteados por uma música islandesa interpretada por Sigurður Halidór Guðmundsson, e quando o vocalista regressa ao palco, mima os portugueses, dizendo que por uns segundos pensava que estava em Woodstock, mas que agora já estava de volta ao Meco e que este talvez fosse ainda melhor! E claro, Erlend Øye, como bom nerd cool que é, não deixa de interagir bastante através de histórias e piadas entre as músicas, perguntando por exemplo aos homens presentes se queriam perceber as mulheres, revelando que só entendia as mulheres italianas (Erlend mudou-se para Itália em 2012). A setlist terminou com outra música recente... La prima estate. Conclusão para aqueles que não querem acreditar: redheads have soul!
Metronomy
De volta ao palco Super Bock Super Rock, deparámo-nos com um palco cheio de nuvens cor-de-rosa que mais fazem lembrar algodão doce. Chegam os Metronomy ao palco, todos vestidos de branco, para tocarem também em instrumentos todos caiados de branco - há claramente um contraste com o pó fora do palco. Joseph Mouth conta-nos que estão muito felizes por voltar a Portugal, já que o primeiro concerto que deram fora de Inglaterra foi o concerto no Porto. Vêm apresentar o novo álbum Love Letters, mas em equilíbrio com sucessos dos outros dois álbuns, como Everything Goes My Way, The Look e The Bay, que foram, sem dúvida, os momentos altos da noite, juntamente com a música que dá nome ao novo álbum. Outros singles do mesmo, como I’m Aquarius e Reservoir obteram menos barulho do que o esperado. Num jogo de guitarras, baixo, teclas e bateria (e ainda os agudos de Joseph), souberam agradar. Há claramente uma evolução no som, parecendo ouvir influências de Arcade Fire. O público, que na sua maioria conhece as letras, está ao rubro pois é uma das bandas que mais ansiavam ver neste dia. Foi um final de tarde perfeito, a terminar com o instrumental fenomenal que é a You Could Easily Have Me (bem melhor a versão live que a de estúdio!). E mantenho a minha opinião de que Olugbenga Adelekan é um dos baixistas mais cool atualmente e a baterista Anna Prior é uma heroína no meio de uma banda constituída só por rapazes.
The Cat Empire
Diretamente vindos da Austrália, pela primeira vez em Portugal, estes cool cats, reis da mistura do ska e jazz, vieram reclamar um novo império: o Meco! Até são bastante conhecidos no vasto público, mas mesmo quem não os conhece, não resiste em vir dar um pulo ao palco EDP, e uma vez conquistados, não procuram outros palcos até a última nota do concerto! Todas as músicas são cheias de energia, perfeitas para o verão e pedem-nos para dançar à maluca. Quando chegou a vez de Brighter Than Gold, toda a plateia cantou e provavelmente ocorreu um sismo durante a atuação. Estes felinos selvagens deram-nos um dos espetáculos do dia, metade durante o dia, metade durante a noite (para todos os gostos). Esperemos mesmo que voltem brevemente, porque é um daqueles concertos imperdíveis que nos deixam sempre felizes e prontos para outra.
Tame Impala
Ao som de um distorcido Can You Feel The Love Tonight? dá-se a entrada de mais um grupo australiano em Sesimbra. O povo no palco principal do Meco atingiu o seu auge. Até os membros de Metronomy estão a assistir. Kevin Parker introduz com it’s fucking great to be back in Lisbon… it’s no Lisbon though. Está na hora de fritar a mioleira, com que o de mais psicadélico há no rock atual. Quer queira quer não, uma nova banda que surja neste estilo, vai ser sempre comparada aos (un)Tame(d) Impala. E há razões para tal. São A banda. Penso que existe algo no ar da Austrália, algo especial. Um set que alternou entre os dois álbuns lançados (Innerspeaker e Lonerism), levou-nos numa viagem ao espaço ou a um mergulho infinito sem darmos conta (o cenário e os agudos de Kevin ajudaram). Os momentos mais altos deram-se com Elephant e Feels Like I Only Go Backwards. Na saída da banda repete-se o hit do Rei Leão. Ouviu-se muito o i wanna take what they are taking, mas quem precisa de substâncias tripeiras, quando nos basta só ouvir Tame para entrar em modo music on world off brain washed? Dito isto, you gotta love what synths and guitars can do.
Jake Bugg
Jake Bugg regressa um ano depois de ter estado pela primeira vez em Portugal, agora com 20 anos e mais um CD na mala. E um ano dá muita margem de crescimento e chega para construir uma base de fãs maior e mais sólida. Não, ainda não é desta que o Jake começou a sorrir e a interagir com o público, mas nem todos os artistas são iguais, o vocalista gosta de dar performances sólidas com um grande jogo de guitarras diferentes e uma voz única e rara que remonta ao passado. Ainda tem muitos anos de carreira pela frente, mas se continuar a criar músicas tão boas em tão pouco tempo (lançou o primeiro álbum em 2012 e o segundo logo em 2013), essa carreira vai ser longa e Bugg ainda vai crescer bastante e continuar a agradar e a unir gerações diferentes. Dizem que o vocalista atrai mais raparigas, mas notou-se também a presença de muitos cavalheiros, uns por acompanharem as suas namoradas ou amigas, mas outros, sem dúvida, por já terem o “bichinho”, em parte porque evoluiu de um álbum maioritariamente mais folk para outro mais rock. A setlist foi alternando entre ambos, agradando ambas as partes, que cantaram fervorosamente músicas como Trouble Town, Seen It All, Taste It, Slumville Sunrise e Lightning Bolt. Cá em Portugal parece que resulta melhor o concerto do Jake num palco secundário como o EDP, por enquanto. E qualquer concerto que seja à noite, soma mais pontos. Grande noite para Jake Bugg e para quem o viu.
Massive Attack
O palco Super Bock Super Rock recebe então os reis do trip-hop. Vêm ensinar as novas gerações a abrir horizontes e a ouvir bandas que já estavam nesta vida há mais tempo do que elas, e vêm deliciar a noite dos mais velhos. Até os irmãos Disclosure assistiram e devem ter aprendido qualquer coisinha. O palco recebeu muitos convidados, como Martina Topley Bird, Horace Andy e Deborah Miller. Num cenário interativo cheio de palavras, transmitem notícias, questões políticas e lições de moral numa mistura de inglês e português. Com uma setlist maioritariamente focada no álbum mais recente (Heligoland, 2010) e no famoso álbum Mezzanine (1998), clichés aparte, foi um “ataque massivo” que encheu o festival (e quiçá até o pessoal na lua curtiu) de boa música. Conseguiram fazer o público pensar no que está errado com a sociedade, como a privacidade/liberdade que falta nos dias de hoje devido à tecnologia (inserir aqui a Technologic dos Daft Punk) e a luta da música vs indústria. Só ficou a faltar Karmacoma. A delicadeza de Teardrop, o poder de Angel, Jupiter do mais recente trabalho de Robert Del Naja e o negro de Inertia Creeps prepararam-nos para um encore de mais três músicas. Coube a Unfinished Sympathy arrumar este grandioso espetáculo, seguido de uma vénia de todos os artistas que contribuíram para um concerto que ficará certamente para a história.
Panda Bear
A mioleira não parou de fritar... no palco EDP já estava o pai de Animal Collective, que atualmente reside em Lisboa. Sozinho no palco com a sua máquina, Noah Lennox fez-se acompanhar por um cenário de imagens às vezes um pouco perturbadoras, outras vezes agradáveis como gummy bears (primos diretos do artista). As árvores iluminadas por uma luz vermelha contribuiram para esta viagem psicadélica. Não seria uma noite de verão sem o toque mindfuck de Panda Bear. Interpretações possíveis para o que assistimos há muitas, mas mesmo que tentemos perceber o que canta Noah, não conseguimos. Deve ser muito interessante uma conversa com esta personagem.
Disclosure
Guy and Howard Lawrence têm apenas 20 anos, mas já são considerados o grande nome do house atual. O concerto mais esperado da noite no palco Super Bock Super Rock teve mesmo uma espera extra, como se esperássemos pela noiva. Os últimos são mesmo os últimos, mas valeu muita a pena, pois assim que começaram com a F For You, todo o recinto no Meco tornou-se uma autêntica pista de dança e ninguém quis faltar à festa! Tirando um problema técnico no fim de White Noise, com uma pausa de cinco minutos, os irmãos, que apresentam uma tranquilidade igual a quem anda nisto há muito, retomaram como se nada tivesse passado. Fomos deliciados com onze das vinte músicas presentes no único álbum lançado em 2013, Settle, sem faltar hits como When A Fire Starts To Burn, You & Me, Help Me Lose My Mind, e para terminar, a casa foi abaixo com Latch.
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Texto: Irina Silva
Fotografia: Rúben Viegas















