Há muito tempo que não se via uma Queima das Fitas do Porto tão musicalmente interessante. As confirmações de Franz Ferdinand e Crystal Castles provocaram uma grande onda de entusiasmo na comunidade académica - já cansados da repetitividade dos cartazes de anos anteriores.
CRYSTAL CASTLES
{gallery}FotoReportagens/QueimaPorto2010/CrystalCastles{/gallery}
FRANZ FERDINAND
{gallery}FotoReportagens/QueimaPorto2010/FranzFerdinand{/gallery}
Tudo começa com a invasão ao centro da cidade para se assistir à Monumental Serenata - marcada, sempre, para as praxistas 00h01 de Domingo. É neste momento que caem as primeiras lágrimas: pela despedida da vida académica ou pelo início de uma. Capas são traçadas pela primeira vez e um ano cheio de emoções é recordado.
Por este motivo, a chegada ao Queimódromo acontece já com o concerto de Tiago Bettencourt & Mantha nos últimos suspiros. Aos poucos, a enorme maré de capas negras, presente na Serenata, começa a chegar ao local dos concertos. O recinto compõe-se e torna-se já difícil ter um bom lugar para assistir a Crystal Castles.
A dupla canadiana Alice Glass (voz) e Ethan Kath (sintetizadores) traz na bagagem um álbum de estreia bem recebido nos corredores indie-electro e um novo trabalho a poucos dias de ser editado.
Para a actuação ao vivo contaram com um elemento a mais em palco: um baterista para dar ainda mais músculo às canções. A entrada em cena é feita sob uma enorme ovação e a expectativa cresce para ver se a fama de destabilizadores de palco se comprova ou não. Não foi preciso esperar muito e logo na primeira bomba electro chamada “Baptism” (do novo disco) o caos instalou-se. Alice desloca-se, desde logo, para as grades – onde iria estar grande parte do concerto - atiçando a plateia para um furacão de dança demolidora. A conjugação de efeitos de luzes rápidos com as músicas curtas e directas proporcionou uma enorme noite rave.
Foram muitos os momentos de exaltação: veja-se a combinação vencedora de "Doe Deer" seguida de "Celestica", ambas do novo disco. Mas foi nas emblemáticas "Courtship Dating" e "Alice Practice" (esta última um sucesso por cá muito graças à série Skins) que o recinto explodiu numa caótica festa. Sem dúvida a melhor forma de começar a Queima de 2010.
No segundo dia foi a vez dos Flow212 e dos Buraka Som Sistema tomarem de assalto o palco. Contudo, as atenções da noite estavam focadas noutro acontecimento: o escaldante PortoxBenfica. Apesar de tudo, a noite foi de ritmos quentes e danças inesgotáveis.
É notável a popularidade que os Buraka Som Sistema alcançaram nos últimos anos. O recinto tornou-se pista de dança sendo impossível resistir às batidas incendiárias do kuduro dos Buraka. Como seria de esperar, "Kalemba (wegue wegue)" e "Yah!" foram os momentos altos da actuação. A enorme dinâmica em palco promoveu uma sintonia com o público que, no fim, resultou num poderoso concerto.
Ao terceiro dia, segunda-feira, chega o concerto mais aguardado da Queima 2010. Numa confirmação que deixou tudo e todos de boca aberta, Franz Ferdinand subiram ao palco perante um Queimódromo a arrebentar pelas costuras. Nas anteriores passagens por Portugal, a banda deixou sempre rendida a crítica e público pelas actuações frenéticas e festivas.
Desta vez, no último concerto de uma extensa tour, foi notório um cansaço em todos os elementos. Não se pode dizer que não tentaram, bem pelo contrário. Alex Kapranos, carismático vocalista, várias vezes tentou combater o desgaste com saltos esforçados; o cansaço levou sempre a melhor. Contudo, para quem estava, pela primeira vez, a assistir a um concerto de Franz Ferdinand por certo ficou rendido. Desde logo porque o alinhamento se centrou, maioritariamente, no primeiro (e marcante) disco com músicas como “Jacqueline” (a abrir o concerto), “Auf Achse”, “The Dark Of Matinee”, “Michael”, entre outras.
O alinhamento prosseguiu pelos restantes dois discos com “The Fallen”, “Do You Want To”, “Ulysses”, “No You Girls” e “What She Came For”. Pelo meio, tempo ainda para uma jam de percussão com os quatro rapazes da Escócia, juntos, no centro do palco.
Na memória ficará, certamente, a loucura no recinto durante as viciantes “Take Me Out” (um dos grandes hinos da década) e “This Fire”.
Os Franz Ferdinand nunca darão um espectáculo aborrecido e, por isso, foi um concerto que para quem conhecia serviu para matar as saudades; para quem não conhecia ficou fã.
Terça-Feira, dia de cortejo, ficou a cargo dos HI-FI e de Quim Barreiros. A música, nesta noite, é o que menos importa. Os primeiros dedicam-se a covers de várias bandas consagradas: Queen, U2,etc. Chegou para animar as hostes e a preparar para o mítico Quim Barreiros. É um lugar reservado nas noites de cortejo do Porto. Com o mesmo espectáculo há pelo menos 4 anos, Quim Barreiros socorreu-se dos seus êxitos populares e do habitual despique clubístico, presente em todos os seus concertos. Uma noite de bailarico saudável.
Quarta-Feira é, por norma, o dia menos concorrido das noites da Queima. Este ano não foi excepção e o recinto apresentou-se bastante despido para assistir aos Souls of Fire e Marcelo D2. Contudo, os Souls of Fire (que estavam a tocar em “casa”) tiveram a seu lado um público bastante fiel e que retribuiu, de forma simpática, as boas vibes da sonoridade reggae da banda. Vale a pena destacar a alegria com que todos os membros da banda dedicaram à actuação, fazendo passar a imagem de que pisar o palco da Queima era uma grande honra para todos eles.
De seguida foi a vez de Marcelo D2 entrar em acção. O recinto estava mais composto e preparado para receber as sonoridades hip-hop, funk do artista brasileiro. Entre correrias na plateia ouviu-se um “vai ser o melhor concerto da queima”. É discutível mas a verdade é que às primeiras batidas os braços se estenderam no ar acompanhando cada ritmo das músicas. Não foram muitos os presentes mas eram devotos.
Quinta-feira fica marcada como a maior enchente desta Queima 2010. O preço especial da cerveja e a presença dos Xutos e Pontapés foram os responsáveis de tamanha adesão.
Após 30 anos de carreira é justo colocar a banda de Tim e companhia no patamar de lendas da música portuguesa. Durante o concerto todo a banda tocou os seus maiores hinos, dos distintos discos. Ver gerações tão díspares cantarem, em uníssono, músicas como “Homem do Leme”,“Casinha” ou “Mundo ao Contrário” faz sentir que os Xutos e Pontapés são propriedade do povo português. O concerto, que teve 3 pausas, contou com a habitual simpatia de Zé Pedro e os seus riffs, Cabeleira nos solos com a atitude mais poser e Kalú o portista a tocar em casa. A actuação encerrou de uma forma emocionada ao som de “Para Sempre” e com a plateia rendida.
Dia 7, sexta-feira, contou com actuações dos Linda Martini e Nneka. Novamente com o recinto a meio gás, os Linda Martini estrearam-se no palco da Queima do Porto. Desde 2008 que não actuavam na Invicta e disso mesmo deram conta durante o concerto.
Iniciaram o espectáculo com um instrumental (possivelmente do novo disco) em crescendo (ao estilo de uns Mogwai) que transitou, no final, para a explosão sónica de “Cronógrafo” – primeiro single do fantástico disco de estreia “Olhos de Mongol”. Ao contrário do esperado, o destaque não foi exclusivamente para “Olhos de Mongol”: contou apenas com “Dá-me a tua melhor faca”, “Amor Combate” e “A Severa”. Os EPs “Marsupial” e “Linda Martini” foram bastante revisitados com as favoritas dos fãs “Este Mar”, “As Putas dançam Slows” e “Lição de Voo” a marcarem presença.
Com novo disco na calha, os Linda Martini tocaram, igualmente, o já conhecido novo single “Belarmino” sendo mesmo um dos momentos mais fortes do concerto. A julgar pela pujança em palco (Hélio, o baterista, é uma verdadeira locomotiva) vale a pena esperar por um bom segundo disco, que estará a chegar.
Uma Queima das Fitas é sempre mais do que concertos. Mas este ano a Queima do Porto fintou a rotina ao apostar em bandas diferentes e apelativas e ganhou a aposta.
Texto: André Machado
Fotógrafo: João Ribeiro















