NOS Primavera Sound 2014: Fresco e clássico mas não trôpego
Caetano Veloso, Kendrick Lamar, Rodrigo Amarante e Jagwar Ma proporcionaram os melhores momentos do primeiro dia da terceira edição do Primavera Sound no Porto, um festival que nos recorda os primeiros anos do festival catalão original (2002 a 2004, no Poble Espanyol, em Montjuic), pela magia intimista que se transfere do local e dos músicos para o público.
No primeiro dia as portas abrem com um relativo atraso. As malas-manta, tão tradicionais desde a primeira edição do Primavera Sound no Porto, já ocupam uma interessante percentagem da relva. O arco-íris Nos, o branco e o amarelo das típicas toalhas de piquenique contrastam com o verde da relva e ajudam a tornar o Primavera Sound um festival com caraterísticas únicas no panorama nacional. Espanhóis e ingleses abundam, melómanos na expetativa de viverem bons momentos num cenário natural idílico.
Os da Cidade habitam agora o parque e por pouco não se sentam na relva - em cima de uma das mala-toalha distribuídas de força gratuita e generosa pelo patrocinador -, a tocar e a cantar. Vontade não lhes falta. António Zambujo domina, os restantes acompanham bem.
Saltamos de palco. Depois do excesso do Rock in Rio - número de pessoas, marcas, misturas de luzes e sons, sabe bem ir à "sala estar" de Rodrigo Amarante ouvir canções com alma. À guitarra ou ao piano, lindíssimo e rústico (madeira), Rodrigo, bem acompanhado - «ahh garoto!!» - mesmo quando se esquece de ligar a viola... Qualidade de som acima da média, mesmo para o Primavera Sound. «Vai cordinha bonitinha», diz enquanto afina a guitarra. Que ainda assim faz ‘reverb’ durante o último tema. Um belíssimo concerto, intimista qb.
A pop agradável dos Spoon exprime-se num concerto para gente sentada, agradavelmente, na relva. Nem mais, nem menos.
SPOON
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Sky Ferreira traduz-se em algum histerismo juvenil, sobretudo feminino. A cantora não consegue ter monição de palco nos fones, apenas via monitores de palco, o que perturba o que parece ser uma banda sonora que viaja até aos anos 80. Tenta dizer obrigada... Timidamente, com medo de errar... Ao fim de algum tempo mostra os olhos, mas as músicas continuam a ser despejadas sem rasgo especial. Vagueia de um lado para o outro do palco. «You are the guys from the airport, right? Boys...», pergunta. A qualidade melhora ao longo do concerto, mas não o suficiente para evitar que parte da audiência aproveite o momento para jantar. O som pop fm dos anos 80, algures entre Goldfrapp e Heart, alcança poucos aplausos, mas muitos gritinhos sub16. No fundo, uma pastilha pop. Mastiga, deita fora.
SKY FERREIRA
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Caetano Veloso e a sua Banda Cê dispensam apresentações. Ao invés de um Coliseu ou Casa da Música, estão hoje no Parque da Cidade tal como estiveram a semana passada no Parque Del Forum de Barcelona. O excelente disco “Abraçaço” é a novidade em carteira. Discorrida a ficha técnica, chega Caetano e os jovens Cê, logo a abrir com “A Bossa Nova é Foda”. Há bons pormenores cenográficos em palco - quatro quadros ao fundo. Caetano quer ouvir o público cantar bem alto: «A BOSSA NOVA É FODA». “Baby” é logo o segundo tema. Para o mestre não há tempo a perder, vai direto as clássicos mais desejados. Aos 73 anos, a voz e som estão impecáveis. «We love you too, baby», responde o público com carinho. O tema-título “Abraçaço”, numa versão bem mais roqueira, distancia-se do original, mais próximo do trabalho do jovem Criolo (um novo músico brasileiro a ter em atenção)... Admirável a performance final com todos os músicos atrás uns dos outros. «Orgasmos múltiplos», diz Caetano enquanto corre e se atira para o chão.
“Estou Triste” - com crescendo, mais preenchido - tem uma letra deprimente sobre a solidão, um som paradoxalmente coeso, enquanto “Odeio” é apresentada com uma batida funk musculada e “Escapulário” está também mais funk, com as emoções à flor da pele. E eis um momento de quebra com “Leãozinho”, embora muitos discordem (todos os que entoaram o tema). Não havia necessidade, ‘rei’ (Leão).
“O Império da Lei” («há-de chegar no coração do Pará») é mais uma excelente letra de “Abraçaço”. Neste momento o público apresenta-se totalmente rendido. Em “Você Não Entende Nada”, do primeiro disco com a banda Cê, Caetano acena ao público, percorre o palco, samba rock, dá tudo. O público está saciado mas Caetano regressa ao palco com “Desde Que o Samba É Samba”, recupera “Nine Out Of Ten” («And I know that one day I must die», a lembrar Madness). Canta ainda acapela e em castelhano “Tonada de Luna Llena” (Barcelona ligou…) e termina com o hino que gravou a meias com Gal Costa “A Luz de Tieta. Fenomenal.
CAETANO VELOSO
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As fãs de Sky Ferreira estão de volta durante o concerto de Haim e fazem-se anunciar com gritos constantes. O som das três manas de San Fernando Valley está bastante razoável e apesar de serem multi-instrumentistas, cada uma opta pelo seu instrumento predileto – guitarra, bateria e baixo – no encaixe dos seus sucessos/singles entre outros temas menos conhecidos do álbum de estreia “Days Are Gone”. Está a ser memorável? Não. Ainda têm de palmilhar um bom bocado. Mas as manas têm piada, cada uma vestida a rigor como se fosse uma heroína de uma animação japonesa diferente. Veremos o que nos traz um segundo registo.
HAIM
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Aguardada estreia em Portugal de Lamar, Kendrick Lamar. Esquerda, centro, direita. Puxa pelo público, sabe a escola toda. Em apenas 55 minutos, a uma média de uma música a cada dois minutos, o jovem de Compton revê todos os singles da sua (curta) carreira. Presta homenagem aos grandes como Tupac ou Dre e vem acompanhado por excelentes músicos nas teclas (e samplers), bateria, baixo e guitarra. Surpreende com algumas escolhas arrojadas mais jazzy mas acima de tudo agarra o público do primeiro ao último minuto. E fá-lo com muita categoria. Promete voltar em breve. Acreditamos que qualquer testemunha do concerto gostaria de o rever. Alguns para conversar com ele acerca da elevada quantidade de erva consumida, que o recordou a Los Angeles natal.
KENDRICK LAMAR
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Os Jagwar Ma têm algum azar com o tempo. Os prometidos aguaceiros dos boletins meteorológicos surgiram antes e durante o concerto - chuva molha tolos e algum vento. Uma das miúdas de Warpaint junta-se ao concerto em três dos melhores momentos do mesmo - os três derradeiros temas. De início alguns problemas técnicos e algum delay excessivo prejudicam a atuação de umas das mais interessantes bandas contemporâneas. O horário também não terá sido o mais feliz - comparável ao dos Rapture há dois anos. Mas todos os que enfrentaram a chuva mereceram o concerto que testemunharam dos novos Primal Scream. Fantástico final de noite no Parque da Cidade.
JAGWAR MA
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Texto: Filipe Pedro
Fotografia: Rúben Viegas















